2009 Semana Profana


Por Fernando Lapa

Esta obra responde à minha vontade de compor uma obra para voz, de forma mais sustentada e consistente, tanto no alcance do gesto musical, como na extensão e no tempo. (…) No meio de alguns livros da Regina havia um conjunto de poemas que me impressionava, desde que os li da primeira vez. Deles nasceu, musicalmente, esta “Semana profana”: como um todo, formado por diversas peças mais pequenas que se articulam como um gesto global. A vontade de alargar o âmbito expressivo e dramático da música, procurando corresponder às potencialidades dos textos, levou-me também a escolher um conjunto de instrumentos com os quais me identifico particularmente: o clarinete, o violoncelo e o piano. Refiro-me sobretudo às suas características tímbricas e expressivas, e às potencialidades técnicas, específicas de cada um deles. Os poemas desta “Semana profana” são tantos quantos os dias da semana. A esse conjunto acrescentei eu um Prólogo instrumental e dois “separadores” musicais. O segundo deles, Intermezzo II, para clarinete solo, é um momento muito particular da obra. Construído como uma espécie de cadência instrumental, pretende sublinhar de forma enfática um verso absolutamente inesperado, também ele fora da sequência dos dias da semana: “Neste dia António Nobre não morreu”. Entre este solo e as partes escritas para todo o ensemble (Segundafeira; Intermezzo II; Sexta-feira; Domingo) há diversas combinações de todos os instrumentos: Terça-feira, para voz, clarinete e piano; Quarta-feira, par voz e violoncelo; Quintafeira, para voz e piano; Sábado, para voz, clarinete e violoncelo. Isto prende-se com a procura de uma diversa caracterização de cada poema e com o aproveitamento das peculiaridades tímbricas e técnicas de cada instrumento. O registo geral da obra é de acentuado dramatismo, procurando corresponder à escrita ágil e desassombrada de Regina Guimarães. Quase sempre desconcertante no desfecho, mas também no ar irónico, ácido e corrosivo. Sempre inspirada. E livre. No centro dos poemas – e tentei eu, no centro da música – leio o verso desesperado(?) “leva-me, até eu não morrer”, verso com que termina um grande poema, Sexta-feira (não vale não) desta Semana profana. Mas há muitas outras ambiências nesta peça, como por exemplo em Terça-feira (o do amor), onde se canta: “o primeiro desejo dos amantes é serem velhos amantes / e começarem assim o amor / pelo fim”. Ou em Sábado (casa da noite): “se a imaginação é fértil, / estéril será a poesia”; ou ainda no extraordinário verso final de Domingo: “só me lembro de nascer / como uma labareda / a pão e água”. Fácil é concluir que o sentido, o carácter e o ambiente de cada uma das partes de que é feita esta obra são inteiramente marcados e desenhado pelos poemas. Não poderia ser de outra forma. Esta obra, que é também uma homenagem à poesia de Regina Guimarães, foi estreada pelo Quarteto Contratempus e apresentada em vários outros concertos por esta jovem e qualificada formação.

Composição Fernando Lapa Texto Regina Guimarães Encenação António Durães Soprano Teresa Nunes Clarinete Crispim Luz Violocelo Susana Lima Piano Brenda Hermida Vidal

Produção Quarteto Contratempus Duração 30 min • M/6