POR MÁRIO JOÃO ALVES  • Libretista

Numa noite de verão (creio que era verão e tenho preguiça de ir agora ao meu montinho de programas de concertos) fui a Esposende apanhar vento e descobrir um projecto que me encantou. Era uma “coisa” em duas partes. Eram água e vinho, mas ambos excelentes na sua condição. Na primeira parte, a Semana Santa do Fernando Lapa com textos da Regina Guimarães; na segunda, A Querela dos Grilos da Fátima Fonte com texto do Tiago Schwäbl (lembrei-me dos nomes sem ir ao montinho!). Volvidos alguns meses, voltei a ver o espectáculo e ainda gostei mais: tinha crescido! O curioso era ver como aqueles cinco artistas irrequietos eram capazes de criar um perfeito espectáculo de ópera. Tudo eram armas de palco: violoncelos, malas frigoríficas, cadeiras de praia, clarinetes…

Quando os mesmos artistas me propuseram criar um libreto que seria musicado pelo Nuno Côrte-Real (o próprio, o autêntico!) e que seria encenado pelo António Durães (sim, esse que estão a pensar!) senti o que se sente nesses momentos: eu?   

Se a questão seguinte é sempre a mesma: o que é que falta criar? A resposta é também sempre a mesma: nada e tudo! E é esse o encanto da coisa, que faz a cabeça voar. Nessa altura, andava envolvido na criação de um espectáculo para o Serviço Educativo da Casa da Música sobre a Rússia (e para um músico ou para quem gosta de ler é um consolo mergulhar na Rússia: Stravinsky, Dostoievsky, Prokofiev, Tolstoi, Shostakovitch, Gogol…) Naquele mundo imenso e distante, tudo o que é intenso e frio pode acontecer. Parece que tudo o que acontece é em grande, em forte, mesmo o sublime e o poético.

Quando crio, evito o óbvio (parece-me óbvio, aliás!). Assim que me assaltou a imagem de uma matrioska que deixa de caber no seu espaço, achei que tinha encontrado um caminho possível. E surgiu-me logo na altura a ideia da ária do Ómega 3!

Hoje há lojas de suplementos, cirurgia estética, super ginásios. Quando se compra uma casa compram-se 3 coisas em primeiro lugar: um espelho, uma balança e uma fita métrica. Nutre-se cuidadosamente o corpo, embora se alimente o cérebro com filmes, música e livros quase exclusivamente compostos por açucares e gordura (não deveriam os bens culturais e de entretenimento trazer uma tabela de nutrientes?)

Somos eternos adolescentes e o primeiro cabelo branco é o avesso do primeiro dente. O início da marcha derradeira.

O meu personagem favorito é, por isso, o Dr. Musa Ramelov, nutricionista do Czar (do gordo Czar). Ele conhece a vida, os seus passos, o seu sabor. Da vida que também se alarga e abranda. Da vida que pousa. Dos ossos e da carne que se alargam para acolher a plenitude de uma vida. Da pele que se enruga para melhor sugar a felicidade. Do cabelo que se aclara como o dos sábios.

Ludmila, a matrioska do meio, está num dilema de amor, num dilema de vida, mais do que num dilema dietético. A dieta esconde sempre muita coisa, já se sabe. O amor engorda, a solidão emagrece, a felicidade dá cor, a tristeza é branca como o cabelo dos sábios. Tudo se mistura, de repente. Podia terminar citando umas frases do Dr. Ramelov, mas confesso que tenho preguiça de ir agora ao meu montinho de rabiscos. A preguiça não tem cor, é só um peso sobre as ancas e na parte de cima das mãos, a deixá-las caídas. E eu vou deixá-las descansar: é só colocar este ponto final.

 

POR NUNO CÔRTE REAL • Compositor

Aceitar o convite para escrever esta ópera foi, ao mesmo tempo, um prazer e um desafio. Prazer, porque o universo lírico é um espaço onde a minha índole criativa se sente em casa; desafio, porque a natureza desta ópera apresenta diversas questões que, não deixando de ser interessantes, colocam sérios problemas a resolver. E o mais notório é o fato de apenas estarem envolvidos dois cantores e três instrumentistas. Depois, a ideia principal do libreto, e do próprio convite do Quarteto Contratempus, foi de criar uma ópera cómica, ou “buffa”, se quisermos. Ora, nada é mais difícil que compor comicidades em música, e, em verdade, muito poucos compositores lograram fazê-lo eficazmente: por exemplo, Mozart, com uma música extremamente irónica que, não sendo explicitamente cómica, nos faz sorrir e compreender o divertido das situações, ou Rossini, o grande génio da ópera “buffa”, que verdadeiramente ofereceu à arte lírica uma vertente cómica usando para isso todos os recursos possíveis, vocais e instrumentais, criando uma verdadeira revolução tímbrica, formal e de novos efeitos. Com génios tão universais como estes, que posso eu almejar fazer? Bom, pelo menos evidenciar todas as características possíveis do original libreto escrito por Mário João Alves, cuja ação se situa por entre a fábula e a realidade. Há por isso um lado fantasioso que não quis deixar de experimentar musicalmente. Depois há a vontade de amplificar as situações dramáticas com algum exagero, como por exemplo no lamento de Ludmila, ou na crucial consulta do nutricionista Dr. Ramelov. São pedaços de música onde o exagero transborda e manifesta alguma excentricidade, que, espero, seja minimamente… cómica! Mas não apenas de comicidade trata esta ópera. Há um outro lado, mais negro, enevoado, que o personagem Raskolnikov apresenta. É o dilema entre o crime e o castigo, e sobretudo a questão do arrependimento. Este outro aspeto do libreto traz à ópera um contraste saudável, e equilibra uma talvez superficialidade que paira sobre os diálogos. Digamos que desta forma, esta ópera se transforma numa paleta variada e divertida de coisas tão diferentes como a saudade, a separação, o sonho, o crime, o castigo, a excentricidade, a tristeza, o exagero, e o amor. Sim, o amor, porque na realidade, desde o prelúdio que se ouve no início, através de um soturno solo de violoncelo, aos acordes quentes e serenos do final, o amor está sempre presente. Ou pelo menos essa foi a minha intenção através da música. O amor que se vive, ou o amor que se sonha, são, no fundo, a mesma coisa, pois o importante é mesmo amar. É isso que Ludmila quer. É disso que Raskolnikov precisa. Mas… não será justamente esse amor aquilo que todos nós almejamos?

 

POR ANTÓNIO DURÃES • Encenador

Uma família é algo físico, uma molécula com ramificações, uma rampa que lança átomos para praticamente todos os lados e todos os sentidos, esquerda-direita, liquido-gasoso, cima-baixo, verso-inverno, claro-escuro. Foquemo-nos na parcela mais íntima da família, no seu núcleo essencial: ela move-se, agita-se, de acordo com a sua composição. Os pais e os filhos. Às vezes os avós. Normalmente é assim. Esta família também. Tem uma mãe e tem três filhas. Todas fêmeas. O pai é uma figura ausente. A mãe ocupa-se da economia doméstica, e o pai (presume-se, que tal nunca é dito) é o ausente nunca presente, a quem cumpre fazer nada porque nada é dito que ele faça, nem tão pouco existir. Às filhas cabe crescer e inventar mundo. Imagine-mo-la, à família, assim: uma mãe em primeiro plano, que as mães são, como as casas onde vivem, coisas cimeiras, primeiras, lareiras e chaminés onde arde e se escoa o cimento do fumo e os seus eflúvios maternais, e um grupo de raparigas, três, a caminho do mínimo possível. A mais velha junto da mãe, a mais nova próxima do pai que nesta família não está presente, mas que na fábula da matrioska fecha o grupo descendente, terminando a prole, bigodaça ao vento, porta impermeável a outras descendências, já que a maternidade lhe está interdita.

E assim caminham, estepes fora, até que os pés lhes doam, e as horas as libertem da caminhada: a mãe, para que a filha mais velha lhe tome o lugar; e o pai, ou outro, macho qualquer (sem desdém) ocupe aquela posição derradeira, feche o ciclo, vicie a circunferência.

Esta família tem um chão, uma “terra” como se diz nas grandes cidades, que abandona para ocupar um outro espaço, mais colorido e urbano e cosmopolita. Um espaço de esperança e novas oportunidades. De um sítio no meio do nada, ou do tudo que é o branco absoluto da neve, para um outro sítio no meio de tudo, ou do nada, dada a vacuidade de alguns absolutos. De um lado, um regime alimentar perfeito ainda que aparentemente monótono, e também os desábitos de mundaneidade e de leitura; do outro, as salas apalaçadas da grande cidade, para deixar o olhar correr na força do Neva, passear no Hermitage, comer bublikis com sofreguidão, libertar o espirito naquela Veneza gigantesca construída para ser invejável…

No chão de São Petersburgo, Ludmila Mayrioska Meyusca, a mais velha das irmãs, há-de cruzar-se com Roskolnikov, ainda um projecto de personagem, criatura em ebulição, desiquilibrando-se entre a pré-consciência do castigo e a obrigatoriedade do crime. E consumindo-se nessa elaborada combustão.

Ludmila é feliz. Uma felicidade construída com a argamassa da juventude e consolidada nos pequenos prazeres da vida: os amores inocentes e sem pecado dos primeiros anos, a liberdade absoluta, a segurança familiar, os vizinhos que são família, o cumprimento das reduzidas regras da vida em comum, o prazer da leitura (mesmo que condicionada pela presença de tão poucos livros).

A mudança para a grande cidade entusiasma-a. É um novo mundo que se abre à sua curiosidade. E à curiosidade dos seus pés, e da sua boca, e dos seus olhos. E Ludmila refaz-se na consubstanciação dessa nova felicidade.

É possível, sendo-se feliz, banhar-se ainda mais na felicidade? É! A felicidade pode ser aumentada com o acrescento de espaço e de possibilidades. Entre elas, a leitura, o contexto alimentar, os amores, entre tantas outras. Descobre, por exemplo, o prazer da companhia de outro alguém e fica dividida nesse prazer que sente ser anti-regulamentar. Descobre que para além da foca, base da sua alimentação saudável, há todo um continente para descobrir e, entre as tantas coisas a experimentar, a doçaria; descobre, não apenas o livro preferido, mas toda a literatura. E tudo isto é organizado à luz da mudança de pensamento, no que é orientada pela sua tutora civilizacional, Ana Filosofova, intelectual e feminista.

E, claro, engorda. Em multi-sentidos. Mas também no primário.

E não consegue regressar à organização física familiar de matrioska: entre a mãe e a irmã que lhe segue.

O que fazer? Dieta? Ginásio? Regressar ao ponto de partida? Desfazer a nostalgia da roupa?

O melhor é compor uma ópera e cantar o dilema.

E aqui está ela. Construída a partir da adição de diferentes planos da narrativa. Discursos paralelos que correm com ligeiros desfasamentos no desejo de se organizarem algures, dentro da cabeça do espectador. Tal como as imagens tridimensionais, construídas para além delas, resultado de tresleituras intencionais, que são, assim mesmo, disruptivas e, contudo, gramática. E, logo, linguagem.

Paralela à boca de cena, há um discurso pequeno que a máquina amplifica, duplo discurso, lido ali mesmo pelo que efectivamente ele é e significa, e na tela, ao fundo, pleonástico, porque sublinhado, hipérbole, porque projectado. Na tela hão-de também aparecer, descriminados, os espaços que os actores ocuparão, nunca os lugares ocupados, que esse mistério só ao espectador diz respeito, como na literatura.

A peça é, toda ela, construída a partir destas dinâmicas, destas forças e contra-forças. Da impossibilidade em abstrato, a objecto concreto de cena. Para ferver e levantar voo. Com as asas do Mário João Alves e do Nuno Cortê-Real.