Por Mário Alves

Disseram-me há tempos uma frase que me perturbou:

– “Perdemos o gosto do percurso!”

As célebres viagens de Mozart pela Europa duravam largos meses e grande parte desses meses era passado dentro de pequenos compartimentos aos solavancos. Matava-se o tempo e olhava-se a paisagem. Que até podem ser ambos a mesma coisa. E esse tempo era vivo, de apreender coisas, dentro e fora de si.

Depois eram as longas viagens de transatlântico onde seguiam Toscanini, Caruso, Charlie Chaplin. E esse tempo também era vivo, de apreender coisas, dentro e fora de si.

Mais tarde, já comigo no mundo, saíamos ao domingo em direcção a um sul qualquer, partindo de Perafita. E parávamos em Salreu, ou em Águeda, ou em Pombal, e tudo era caminho para ver. Sabíamos os cantinhos da N1, quando passávamos um rio, as zonas sem casas, o João Padeiro, a Cubata, o Leitão, e tudo tinha uma história. Para chegar a Coimbra eram umas boas duas horas vivas, dentro e fora de nós.

Agora metemo-nos na autoestrada e numa curta hora morta chegamos a Coimbra.

Até o tempo do comboio querem encurtar. E passam-se fins-de-semana relâmpago numa capital europeia. Passa-se por cima de meio mundo que fica escuro, encoberto.

E talvez tudo esteja ligado. O tempo de procurar um livro numa biblioteca, obrigava-nos a descobrir outros dez. Depois, o tempo de procurar algo dentro desse livro, fazia-nos passar por outros dez algos. Hoje apanhamos a autoestrada do Google.

E quem se lamenta disso? Eu não, confesso!

Mas talvez por isso tenha recuperado o gosto do vinil, da cafeteira e insista em não ter máquina de lavar louça. Talvez seja uma forma de resistência, este obrigar-me a contactar com as coisas e a dar-lhes algum tempo.

E com as pessoas? O chat é tão prático! O sms é tão simplificador! O facebook tão epidérmico!

As relações mantêm-se com poucos segundos de rega. Um smile e um emoji enchem-nos o coração. Um like numa recordação, um comentário em forma de boneco e, de repente, somos tão, mas tão íntimos.

Talvez queiramos todos esta proposta lowcost de dinheiro e tempo. E, nessa perspectiva, Jeremias é um homem do futuro. Um homem On/Off, que sai do jogo assim que a derrota se afigura eminente. Que sai do filme, assim que o personagem se torna incomodamente humano. E nós sabemos o quão difícil é suportar coisas tão presentes, tão vivos como os outros humanos.

Por Jorge Prendas 

14 de Maio de 1987

As horas pouco importam. O intervalo das aulas do Conservatório é passado no Café Vasco da Gama e o Mário Alves conta um conjunto infalível de piadas prendendo uma plateia de amigos e colegas.

23 de Fevereiro de 1991

Apesar dos poucos ensaios, as Vozes da Rádio quase se estreiam neste dia não fosse um dos músicos ter afirmado: “o meu cachet são 20 contos”.

21 de Abril de 1991

As Vozes da Rádio estreiam-se no Salão Paroquial de Perafita. O músico com cachet fixo tinha sido, entretanto, substituído.

31 de Agosto de 1997

Mário Alves e eu partilhamos um quarto de hotel durante as gravações do videoclip de “Dunas” e assistimos, no final de um dia de filmagens, à notícia da morte da Princesa Diana.

Circa 2013

Depois de muitas dezenas de canções feitas a meias, centenas de concertos juntos, um número incontável de passeios, conversas, almoços, jantares e cafés, Mário Alves e eu lançamo-nos um desafio duplo: e se escrevêssemos uma ópera?

10 de Julho 2016

O Quarteto Contratempus contacta-me por Messenger para propor a escrita de uma ópera com libreto do Mário Alves.

7 de Setembro de 2016

O encontro agora é pessoal. E a personagem central já tem nome: Jeremias.

16 de Abril de 2017

O libreto chega sob a forma de email e está fechado. Há paixão, drama, romance e morte. Agora é só compor!

Finais de Junho

“As Sete Mulheres de Jeremias Epicentro” é agora um conjunto muito grande de bolinhas, hastes, caracteres e símbolos estranhos colocados em folhas com grupos de 5 linhas.

14 de Setembro de 2017

Acabamos de tomar mais um café. Aparentemente, apesar de morto, Jeremias está com uma excelente saúde para a estreia. 

Por António Durães

Jeremias Epicentro morreu e a noticia é essa.

Acerca desse facto nada há a fazer, que a morte é coisa irreversível, viagem sem retorno. É escrever-lhe um obituário simpático e publicar na página respectiva. A não ser que se possa desligar e ligar o computador de serviço. Recomeçar, digamos assim. À maneira de engenheiro informático. Ou então como Benjamin Button, viajar do fim para o principio, que talvez seja a maneira como as coisas deviam ser…

Mas Jeremias Epicentro não era nenhum Benjamin Button. Nasceu e, por fim, morreu. Não “por fim”, que isso é uma outra historia.

As ondas de choque da noticia da sua morte, desse seu “outro fim”, ainda se fazem sentir.

Assumamos a sua morte e recordemos a criatura singular que pouca gente conheceu e a que pouca gente prestou atenção e serviço. Ou que, pelo menos, dele deu nota. Claro, havia a mãe, a sempre presente mãe, com a sua voz rouca, friccionada, grave, a chamar, a tentar retirá-lo da clausura voluntária a que se submetera, uma ilha qualquer para onde o seu amor incondicional a levou para incondicionalmente o amar.

E havia a esposa, uma ausência que se notava, uma presença esperançosa que logo naufragou no mar do desinteresse de Jeremias. Mas que, paradoxalmente, o mantinha ligado a uma realidade subjacente (subjacentro), que sustentava o seu carácter de península emocional, em vez de ilha solitária, coisa digital e flamejante, mas irreversível, para onde voluntariamente viajou. A esperança numa morte também ela irreversível, sem hipótese de liga-desliga, esteve sempre presente.

E havia a psicóloga que, não o conhecendo, o conhecia como poucos. Um conhecimento virtual, não fisico. Um conhecimento que chegava através do desamor das conquistadas por ele, sedutor irresistível e que, em seguida, abandonava. A quem as conquistadas recorriam para tratar o desconforto do abandono.

E, depois, claro, as “engatadas”. Só em Espanha, são mil e três. Curiosamente a psicóloga é espanhola. É com essas consultas que ela ganha a vida, especialista em personagens sem território real.

As conquistadas são a caça de que Jeremias necessita para se realizar na ilha digital para onde fugiu. Agora já não é preciso percorrer território sem fim em busca de caça. A caça está, agora, ao alcance do rato, esse animal caçador que tomou o lugar do perdigueiro se é de perdizes que se trata, ou do galgo se o território de exploração a galgar é longo. Um rato em lugar de Leporelo.

Na mão está o controlo do mundo. A mão como uma carapaça, uma ex-mão, ex-machina que arma a mão e, com ela, o espaço para um outro território onde Jeremias é rei e de onde Jeremias não pode sair, pese embora os chamamentos recorrentes da mãe, personagem incondicional. Mas de que é capaz de abdicar, morrendo. A sua morte é o epicentro desse tremor de terra, de jogo, de território. Ainda há esperança? Bem vindo ao mundo real, Jeremias.